A escoliose na criança e no adolescente costuma chegar sem barulho. Na forma mais comum, a coluna ganha uma curva lateral sem uma causa conhecida, e a dor, que muita gente espera como sinal de alerta, em geral não aparece. O que chama a atenção é outra coisa: um ombro que parece mais alto numa foto, uma blusa que cai torta. Por isso a triagem ganhou espaço, e por isso vale entender o que ela faz e o que não faz.
Por que a fase de crescimento importa
A escoliose idiopática do adolescente, a forma mais comum, costuma surgir entre os 10 e os 18 anos, justamente no período em que o corpo cresce mais rápido. É nessa fase que a curva pode progredir, até o fim do crescimento. Estima-se que entre 2% e 4% das crianças e adolescentes tenham a condição, que é mais frequente em meninas.
Existem outros tipos de escoliose: a congênita, presente desde o nascimento por uma malformação da coluna; a neuromuscular, associada a condições neurológicas como a paralisia cerebral; e a degenerativa, que surge em adultos com o desgaste da coluna. A idiopática, sem causa conhecida, é a mais comum e é a que este texto aborda.
Como a curva se instala aos poucos e raramente dói, muitas famílias só percebem quando ela já avançou. A fase de crescimento é, ao mesmo tempo, a mais delicada e a mais silenciosa, e é dela que a triagem se ocupa.
O que é a triagem
Triagem é um olhar rápido, sem dor e sem radiação, feito para decidir quem merece uma avaliação mais cuidadosa. Observam-se as costas, os ombros, as escápulas, a cintura e o quadril, e faz-se o teste de Adams: com os pés juntos e os joelhos estendidos, a criança inclina o tronco para a frente com os braços soltos, e quem observa, por trás, procura uma saliência de um dos lados das costas. Às vezes se usa também um escoliômetro, instrumento que mede a rotação do tronco. O foco são os adolescentes, mas adultos que percebam alterações na coluna também podem ser avaliados.
O que a triagem não é
Triagem não é diagnóstico. Quem confirma a escoliose e mede a curva é a radiografia, pelo ângulo de Cobb. Uma triagem alterada quer dizer apenas que vale uma avaliação, e não que a criança tem escoliose ou que vai precisar de tratamento. Boa parte das curvas leves pede só acompanhamento.
Também não é uma questão de mochila pesada, de postura ruim ou de algo que os pais deixaram de fazer. A causa da escoliose idiopática não é conhecida, e culpar o dia a dia só gera aflição.
Por que olhar cedo importa
Porque existe o que fazer. No BrAIST, ensaio clínico publicado em 2013 com adolescentes em crescimento, curvas moderadas e risco de progressão, o uso de colete aumentou a proporção de jovens cuja curva não chegou ao ponto em que a cirurgia costuma ser indicada: cerca de 72% com colete, contra 48% apenas com observação. Quanto mais horas de uso por dia, melhor foi o resultado.
É preciso ler esse dado com cuidado. Ele vale para um tipo de tratamento e para um grupo específico, e quase metade dos jovens só observados também ficou bem. Nem toda curva precisa de colete, e nem toda curva piora. Mas o estudo mostra que, na fase de crescimento, a decisão sobre o que fazer fica melhor quando a curva é acompanhada desde o começo.
Sinais que podem ser notados em casa
Com a criança de costas, relaxada e com os braços soltos, alguns sinais merecem atenção: um ombro mais alto que o outro, uma escápula mais saliente, diferença no espaço entre o braço e o tronco (o chamado triângulo de Tales), um quadril que parece mais alto de um lado, a cintura diferente dos dois lados, o corpo que parece pender para um lado ao ficar em pé e a barra da calça ou da saia sempre torta. Em meninas, a diferença no alinhamento das mamas também pode aparecer.
Uma diferença pequena entre os dois lados é comum e, sozinha, não significa nada. Nenhum desses sinais fecha diagnóstico: eles apenas indicam que vale uma avaliação, que é quem de fato esclarece. Fotos de costas, tiradas de vez em quando, ajudam a perceber mudanças que o dia a dia esconde.
A Semana de Rastreio da Escoliose
A Sociedade Brasileira de Escoliose (SBE) promove, em outubro, a Semana de Rastreio da Escoliose, uma ação de triagem voltada a crianças e adolescentes, realizada em diferentes cidades do país. A triagem é gratuita e também acontece em outros momentos ao longo do ano. Datas, locais e faixa etária são divulgados no Instagram da SBE e no perfil @roberto_camposss.
A triagem é o começo de uma conversa, e não o veredito: serve para decidir quem precisa ser olhado com mais cuidado, e é desse olhar que nascem as decisões.
Referência: Weinstein SL, Dolan LA, Wright JG, Dobbs MB. Effects of bracing in adolescents with idiopathic scoliosis. N Engl J Med. 2013;369(16):1512-1521. PubMed (abre em nova aba)

Roberto Campos
Fisioterapeuta e Osteopata · Crefito 83743-F
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